Dissertação comparativa
- Iasmim Santos

- 13 de dez. de 2018
- 6 min de leitura
Atualizado: 19 de dez. de 2018
Pretende-se por meio desse trabalho acadêmico, desenvolver um eixo comparativo com o livro estudado na unidade I: A construção Social da Realidade dos autores Peter L. Berger e Thomas Luckman que são professores de sociologia. E o livro trabalhado na unidade II: Nem preto nem branco muito pelo contrário: Cor e raça na sociabilidade brasileira, da historiadora e antropóloga Lilia Moritz Schwarcz.
Os dois livros citados anteriormente serão base para pontos de diálogo e análises dos processos que formaram as realidades visíveis na atualidade, e também para as trocas de experiências na construção histórica e social dos indivíduos.
A vida cotidiana apresenta-se como uma realidade interpretada pelos homens e subjetivamente dotada de sentido para eles na medida em que forma um mundo coerente. Então na proporção em que os indivíduos ultrapassam seus ciclos de vida, eles carregam consigo uma bagagem de histórias e consequentemente sua maneira de reavivá-las.
As experiências que ficam retidas na consciência são sedimentadas, com isso, tornam-se facilmente transmissíveis. Ademais, o passado se mantém vivo através de instituições, que legitima e, não apenas diz ao indivíduo por que deve realizar uma ação e não outra; mas diz-lhe também por que as coisas são o que são.
A realidade da vida cotidiana contêm esquemas tipificadores em termos dos quais os outros são apreendidos, sendo estabelecidos os modos como "lidamos" com eles nos encontros face a face. Assim, apreendo o outro como “homem”, "europeu". "comprador'" "tipo jovial", etc. [...] Os esquemas tipificadores que entram nas situações face a face são naturalmente reciprocas. O outro também me apreende de uma maneira tipificada, como "homem", "americano", "vendedor", um "camarada insinuante", etc. (BERGER, LUCKMAN, 1985, p. 49 -50).
Um dos exemplos dessas tipificações pode-se ver no livro de Lilia Schwarz (2012). Desde que Brasil era ainda uma América Portuguesa, o tema da cor nos distinguiu. Os primeiros viajantes destacavam sempre a existência de uma natureza paradisíaca, mas lamentavam a “estranheza de nossas gentes”:
Ao descrever os indígenas brasileiros como “atrevidos, sem crença na alma, vingativos, desonestos e dados à sensualidade”, Gândavo estabelecia uma distinção fundamental entre a terra e seus homens: a edenização de um lado, o inferno de outro. (SCHWARZ, 2012, p.13)
Sempre se apontava defeito, erro. O diferente sempre causou medo e espanto. Então, o problema só poderia estar no outro, e essas tipificações foram se intensificando, até surgirem às ideias de raça e racismo, e com isso realidades foram se formando de acordo com as necessidades, ganho e prioridades de cada um, mais de uns do que de outros. E com elas, as padronizações como o apreço pelo europeu, pela raça limpa e saudável; a perfeição. E a aversão ao que remete às trevas, quebra de padrões europeus, doenças, crime, ao impuro e considerado desprovido de salvação.
A inerente instabilidade do organismo humano obriga o homem a fornecer a si mesmo um ambiente estável para sua conduta. O próprio homem tem de especializar e dirigir seus impulsos. Estes fatos biológicos servem de premissas necessárias para a produção da ordem social. Em outras palavras, embora nenhuma ordem social existente possa ser derivada de dados biológicos, a necessidade da ordem social enquanto tal provém do equipamento biológico do homem. (BERGER, LUCKMAN, 1985, p.77)
Cabe ressaltar que os elementos biológicos, ou seja, a genética dos indivíduos, foram utilizados na história da construção de mundo. Como os atos impagáveis da segunda guerra mundial: o nazismo. Movimentos eugenistas (de supremacia racial branca, a “raça” pura.) que tiveram força não só na Alemanha como também esteve presente no Brasil, como movimentos de esterilização da população mestiça racial, formas de campo de extermínio, comunidades movidas para zonas marginalizadas reféns do crime e da violência. Mesmo que seja de forma velada, não tão direta como em outros países, o Brasil é um país desigual.
Um exemplo disso é a escolha de um Brasil, como é possível ver na obra de Lilia Schwarcz (2012) seja nas versões mais positivas, seja nas evidentemente negativas, esse então Novo Mundo sempre foi “um outro”, marcado por suas gentes com costumes tão estranhos:
O Brasil era desenhado por meio da imagem fluvial, três grandes rios compunham a mesma nação: um grande e caudaloso formado pelas populações brancas; outro um pouco menor, nutrido pelos indígenas, e ainda outro, mais diminuto, composto pelos negros. [...] Lá estariam todos, juntos em harmonia, e encontrando uma convivência pacífica cuja natureza só ao Brasil foi permitida conhecer. No entanto, harmonia não significa igualdade, e no jogo de linguagem usado pelo autor ficava evidente uma hierarquia entre os rios/raças. (SCHWARZ, 2012, p. 22)
Além disso, muitos foram os elementos utilizados para os processos de embranquecimento de populações, pois se via nele, uma solução para acabar com a cor que poluía as visões dos cidadãos patriotas e, de um Brasil rumo ao progresso. O desejo de limpeza populacional dava lugar à cor mais apreciada.
A fim de entender as causas, além das que são estabelecidas pelas constantes biológicas, que conduzem à emergência, manutenção e transmissão de uma ordem social é preciso empreender uma análise que resulta em uma teoria da institucionalização. [...] As tipificações das ações habituais que constituem as instituições são sempre partilhadas. São acessíveis a todos os membros do grupo social particular em questão, e a própria instituição tipifica os atores individuais assim como as ações individuais. (BERGER, LUCKMAN, 1985, p. 77-79)
Bem como as discussões a respeito do racismo no Brasil. Em geral, reconhece-se a existência do preconceito, mas em outros contextos temporais: no passado. O livro nem preto nem branco exemplifica muito essa forma institucionalizada que o racismo, e a discriminação se encontram:
O problema parece ser o de afirmar oficialmente o preconceito, e não o de reconhecê-lo na intimidade. [...] estamos diante de um tipo particular de racismo, um racismo silencioso e que se esconde por trás de uma suposta garantia da universalidade e da igualdade das leis, e que lança para o terreno do privado o jogo da discriminação. Com efeito, em uma sociedade marcada historicamente pela desigualdade, pelo paternalismo das relações e pelo clientelismo, o racismo só se afirma na intimidade. (SCHWARZ, 2012, p.25)
O racismo se apresenta no íntimo, mas segundo mostra Schwarz (2012) ele depende da esfera pública para a sua explicitação, numa complicada demonstração de etiqueta que mistura raça com educação e com posição social e econômica “Preto rico no Brasil é branco, assim como branco pobre é preto”.
Tipificações institucionalizadas que são usadas naturalmente, como se fosse algo normal, mas não é. Isso é uma forma de mostrar como o padrão do negro, pobre, e sem estudo é levando sempre em conta como uma ideia sedimentada nas mentes dos indivíduos, ao invés de saberem que não só um branco, tido como superior pode ser rico ou ter ascensão, mas qualquer um.
Nos resultados do censo de 1950, o sociólogo encontrava não só diferenças regionais (com uma grande maioria de negros e mulatos no Nordeste) como concentrações raciais de privilégios econômicos, sociais e culturais. O conjunto das pesquisas apontava, portanto, para novas facetas da “miscigenação brasileira”. (SCHUARZ, 2012, p.55)
Cabe ressaltar, que a ideia de harmonia entre “raças” etnias é um exemplo de teoria falida na sociedade brasileira, mesmo que tenham tentado reconstruir um novo Brasil, pós-escravidão, demonstrar as limitações do conceito biológico, depois das teorias científicas terem abordado degeneração e problemas relacionados ao cruzamento de etnias diferentes, e deu lugar ao processo de incentivo a imigração para promover o embranquecimento; desconstruir o seu significado histórico, não leva a abrir mão de suas implicações sociais: “Com efeito, raça persiste como representação poderosa, como um marcador social de diferença — ao lado de categorias como gênero, classe, região e idade, que se relacionam e retroalimentam— a construir hierarquias e delimitar discriminações.” (SCHUWARZ, 2012, p.26). Contudo:
Na re-socialização o passado é reinterpretado para se harmonizar com a realidade presente, havendo a tendência a retrojetar no passado vários elementos que subjetivamente não eram acessíveis naquela época. Na socialização secundária o presente é interpretado de modo a manter-se numa relação continua com o passado, existindo a tendência a minimizar as transformações realmente ocorridas. (BERGER, LUCKMAN, 1985, p. 215)
Contudo, embelezam-se certas figuras, produzem-se modelos de nação, como também de um herói nacional como forma de encontrar uma “identidade”, socializando assim o passado com o presente.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
É impossível compreender adequadamente uma instituição sem entender o processo histórico em que foi produzida.
Grandes conflitos, descobertas, avanços foram criados a partir de um passado, que foi passado através de outras gerações, princípios, crenças e valores diferentes dos nossos. Através de narrativas e perspectivas, como foi analisado no livro construção social da realidade.
Nas suas pesquisas, Lilia nos diz que a democracia nunca foi o exercício de lidar com quem é igual, porque é muito fácil pregar para quem já é convertido. Democracia tem que ser o exercício do diálogo com a diferença.
Percebeu-se, no escrutínio dos textos, que o Brasil é um país que pratica um racismo institucional, onde populações que possuem uma cor considerada inferior são tratadas de forma despreocupada, com descaso e sem assistência (dados da Pnad, do censo mostra que a população negra e afrodescendente morre mais cedo, tem menos acesso a educação, tem acesso restrito a saúde, e até no lazer, encontra-se índices de discriminação). Desde o fim da escravidão em 1888.
Vive-se ainda hoje, persistências teimosas do racismo que vem do sistema escravocrata que é refeito no nosso cotidiano. Faz-se necessário, reconhecer que praticamos um racismo estrutural. E não agir com naturalidade diante disso.
REFERÊNCIAS
BERGER, LUCKMAN. Peter L. Thomas. A construção social da realidade. Petrópolis, Vozes, 1985. 248p.
SCHWARCZ, Lilia. Nem preto nem branco muito pelo contrário: Cor e raça na sociabilidade brasileira. São Paulo, Claro Enigma, 2012, 124p.
SCHWARCZ, Lilia. Racismo: O futuro parece um passo para trás. Casa Do Saber. Disponível em:> https://www.youtube.com/watch?v=fiIV-QdGLCA&t=61s>. Acesso: 06 de dez 2018.




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